terça-feira, 18 de julho de 2017

TANCOS, AS ARMAS E A ÓPERA BUFA



TANCOS, AS ARMAS E A ÓPERA BUFA
17/07/17


                                            “O Homem é o Homem e a sua circunstância”
                                                                  Ortega y Gasset


    A ópera continua…
    A única coisa que parece certa no meio de tudo o que se passou é o facto das autoridades portuguesas – sejam elas do âmbito da Defesa, das Forças Armadas, das Forças de Segurança, dos Serviços de Informações, da Justiça, enfim, de toda a parafernália que enforma o tão decantado “estado de direito democrático” – andarem à deriva e não terem a mais pálida ideia do que se passou e como se passou!
    Existem algumas perguntas óbvias que é necessário fazer, dado o assunto ter caído na praça pública. E a primeira é já esta: porque é que o evento, dada a sua delicadeza, caíu no domínio público (que se saiba o furto não foi descoberto por nenhum jornalista…)?
    A que se deve seguir a questão de se saber quando foi feita a última inspecção aos paios?
    Quem tinha acesso aos mesmos? O que é que lá havia efectivamente (desculpem, mas depois de tudo o que já foi dito, tenho dúvidas se alguém sabe a lista do material lá existente)?
    Como é que este tipo de informação foi parar às mãos de hipotéticos bandidos?
    Como é que os paióis foram violados e quando (e o “quando” pode ser diferentes vezes…)?
    Finalmente é necessário saber (a quem investiga o caso, obviamente) que relatórios foram feitos ao longo do tempo, a fim de avaliar os verdadeiros responsáveis em todo este âmbito.
    Também seria curioso descortinar quem fez a fuga de informação para o jornal “El Espanol”, que revelou a lista do material roubado, ou furtado (vejam bem onde chega a discussão!), complementada com um artigo arrasador do correspondente, em Lisboa, do Jornal “El País”, e que nos expõe ao ridículo!
    E é caso para perguntar, se a notícia é falsa porque não se levanta um processo ao jornal?
    Pelo meio desta surrealista situação apareceram umas almas penadas, cheias de teias de aranha, a arengar que tudo não passou de um “golpe da Direita” – como se houvesse alguma “Direita” - para prejudicar o Governo. Não há pachorra!
    Tudo piorou, porém, com o regresso do Primeiro – Ministro do remanso das suas férias, quando à revelia do que se tinha dito até então, tudo foi desvalorizado; deixando o roubo de ser grave, tão pouco perigoso sendo, afinal, todo o mundo competente, não havendo lugar a demissões!
    E até os dois generais que se demitiram por não concordarem com tanta pouca vergonha estavam era ressabiados (como puseram a correr…)[1]
    Resta apenas saber se os cinco comandantes que foram “exonerados provisoriamente”, irão passar a “definitivamente”, ou não!
    Num passe de mágica o assunto morria ali, ao mesmo tempo que se passava um atestado de menoridade mental à generalidade da população.
    Soube-se entretanto, que o CEME, numa manobra táctica inspirada provavelmente no “emprego de armas de tiro tenso no ataque aos pontos de cota mais alta”, já não quer os paióis de Tancos para nada, andando afanosamente à procura de alternativa.
    Logo agora que o senhor ministro, na sua cândida magnanimidade, tinha aberto os cordões à bolsa e mandado reparar a rede e o sistema de videovigilância. Não se faz!
    Para o cenário da Ópera (Bufa) ficar completo o PM e o MDN atiraram com o sorridente CEMGFA para a frente dos microfones (que, supostamente representava, no momento, todos os militares), ficando eles atrás do dito, com ar de quem estava a levar um clister – que momento de glória, senhor general! – para finalmente nos elucidar e para nosso descanso, que afinal a maioria do material desaparecido estava para ser abatido e só valia 34.000 euros! (esquecendo-se convenientemente de dizer que o material obsoleto não deixa de ser perigoso e que o grave de tudo tenha sido a violação dos Paióis…).
    Sem embargo confessou ter levado um “murro no estomago”, o que apesar se ser uma expressão infelizmente apenas metafórica, lhe deve ter afectado o raciocino e as vertebras da coluna.
    Murro, que não alterou a boa disposição para a sardinhada que mandou preparar no dia seguinte, em S. Julião da Barra, para os seus colaboradores mais próximos.
    Melhor senso teve o pessoal da Antiga Escola Prática de Engenharia que cancelou as cerimónias anuais do dia da Arma, a 14 de Julho, devido aos tristíssimos eventos ocorridos e ao ambiente de cortar à faca que se vive.
    A Instituição Militar está de facto, em queda livre…
    A performance do CEMGFA não deixa de representar, todavia, um grande “sacrifício pela Pátria”, o que não deixará seguramente de ser recompensado no próximo dia 10 de Junho com a atribuição pelo PR da republicaníssima “Ordem da Tristíssima Figura”, grau latão, arrematando-se a coisa, no fim, com uma “selfie”.
    Se o CEME tem sido “brilhante” na sua actuação, o CEMGFA consegue superá-lo. Compreende-se, é um superior hierárquico!
    Os professores/instrutores que ensinam “Comando e Liderança” aos cadetes e oficiais, já têm aqui exemplos a apontar.
    Daquilo que se não deve fazer.


                                                      João José Brandão Ferreira
                                                          Oficial Piloto Aviador


[1] Eu ainda me lembro que a pior alcunha que se podia pôr a um cadete da Academia Militar ou da Escola Naval era o de “sabujo”. Infra sabujo.

sábado, 15 de julho de 2017

DESCOLAGEM PARA O ÚLTIMO VOO: General Casimiro de Jesus de Abreu Proença – Presente!



 DESCOLAGEM PARA O ÚLTIMO VOO:
General Casimiro de Jesus de Abreu Proença – Presente!

14/07/17

                                                                      “O homem é o homem e a sua circunstância”
                                                                                                Ortega y Gasset

     A “minha” Força Aérea (FA) está a desaparecer.
     Isto é, a FA onde fui formado e que conheci - mas que nunca conhecemos no seu amplexo mais amplo...
     No caso vertente os homens com quem privei (já não fiquei para conhecer as mulheres…), ou seja as pessoas que fazem as Instituições.
     Sem embargo das Instituições serem muito mais do que as pessoas que as constituem em cada momento, pois transportam consigo o cadinho do trabalho e do espírito de todos os que antecederam os contemporâneos, e as projectão no futuro.
    Numa palavra estão antes delas e para além delas.
    O General Casimiro Abreu Proença, ontem falecido com a provecta idade de 86 primaveras foi um dos oficiais que deixou uma boa marca na Instituição FA, não a desmereceu e passou o testemunho positivamente aos vindouros e ao País.
    Digo isto pois tive o grato gosto de o conhecer – apesar de já num estágio avançado da sua carreira – e de o comprovar.
    Razão porque estou aqui a atestá-lo e, se me permitem, a homenageá-lo.
    O “nosso” General teve uma carreira típica e “pura” dentro do Ramo que escolheu (e foi aceite!) entrar, em 1949, tendo feito o seu tirocínio nos EUA, na prática a única saída do país para uma estadia no estrangeiro, que efectuou, numa altura em que estas “comissões” eram raras.
    Fez toda a sua carreira subindo a pulso a cadeia hierárquica dos postos, funções e das qualificações, tendo por pano de fundo a aviação de transporte (Noratlas, DC-4, C-54, DC-6 e B-707) sem embargo de ter sido “caracol” (instrutor na esquadra de instrução complementar, equipada com T-33).
    Ilustrou a sua existência com duas comissões nos teatros de operações de Angola e Moçambique, em operações reais de combate, na defesa da Pátria.
    Esteve do lado (certo) das forças sãs, na defesa da Nação e do Estado, durante a louca aventura que se seguiu ao 25 de Abril de 1974 e foi um dos “vários braços” que a nova chefia da FA – que por especial graça divina, recaiu no General Lemos Ferreira – teve a sorte e o saber de encontrar para projectar o futuro da FA, que esteve em sério risco de desaparecer.
    O General Abreu Proença era uma pessoa simples e directa e, apesar de não possuir o dom da palavra, conseguia dizer tudo o que queria e fazer-se entender sem ouropéis de frases redondas.
    Foi um operacional e nunca foi um “político”. Era leal e nunca se pôs em bicos dos pés.
    Era humano e não consta que alguma vez se tenha desonrado.
    A FA deve preservar a sua memória.
    Deixa saudades a quem o conheceu; a mim, seguramente deixa.
    Meu General estou certo que efectuará uma suave aterragem no seio da nossa Padroeira, Nossa Senhora do Ar.


                                           João José Brandão Ferreira
                                               Oficial Piloto Aviador

quinta-feira, 13 de julho de 2017

SER MILITAR DA FORÇA AÉREA: UMA PROFISSÃO OU UMA VOCAÇÃO?

Texto publicado no livro comemorativo dos 65 anos da Força aérea, lançado no pretérito dia 10.






SER MILITAR DA FORÇA AÉREA: UMA PROFISSÃO OU UMA VOCAÇÃO?


“A toupeira não pode ter do mundo a mesma visão da águia”.
Séneca

            A essência da Força Aérea está intimamente ligada à sua missão, que sinteticamente se pode definir como a da “Defesa do Espaço Aéreo Nacional e a Cooperação com as Forças Terrestres e Navais”.
            É esta missão que vai enformar toda a instrução do militar da Força Aérea, ser omnipresente na sua actuação e guiar todas as suas sinergias.
            Pode inclusive, requerer o sacrifício de todo o seu ser.
            A Força Aérea é um Ramo das Forças Armadas por isso a base de toda a sua formação e estrutura, é militar.
            É, outrossim, uma instituição, quer dizer uma cousa estabelecida; uma estrutura de ordem social que regula o comportamento de um conjunto de indivíduos dentro de uma determinada comunidade; tem uma função que transcende os seus membros e as intenções, mediando as regras do comportamento.
            A formação militar é transversal a todas as especialidades e é o esteio onde tudo se apoia, de onde tudo deriva.
            A “condição militar”, caracteriza e condiciona pois, toda a postura dos servidores da Força Aérea.
            Servir é, deste modo, a medida referencial de quem ingressa na Instituição Força Aérea.
            Deste modo, quem vem, não deve vir procurar um emprego, mas sim assumir os valores, o modo de funcionamento e as implicações das missões que irá ajudar a cumprir.
            Tem que interiorizar toda a instituição e assumir como seus, os objectivos desta.
            Tem de “Ser” da Força Aérea, e não apenas “estar” na Força Aérea.
            Ora tal não se compadece com o querer apenas exercer uma profissão (do latim “professio”), isto é um trabalho especializado, uma ocupação produtiva, pela qual se recebe uma retribuição económica.
            Coaduna-se sim, com uma vocação e na manutenção do ideal dessa vocação (do latim “vocare”) e que podemos definir como uma tendência ou inclinação natural que direcciona alguém para uma profissão específica; quiçá um chamamento, que pode ter uma dimensão espiritual, algo que fazemos com amor…
            Por isso se pode perceber que ser militar da Força Aérea não é, não pode ser, o mesmo que ter um emprego, no sentido de ter uma ocupação mais ou menos temporária, pela qual se é remunerado.
            E também conheci muitos civis que tendo um estatuto e uma formação diferenciados, bem se pode dizer que serviram a Força Aérea com alma e coração.

                                                            *****
            Sendo a Força Aérea um dos Ramos das Forças Armadas está porém, enformada pelo meio onde opera - a atmosfera, desde a crosta terrestre até à troposfera – e da maneira como o faz.
            Operando e combatendo no Ar, os meios da Força Aérea estão todavia, umbilicalmente ligados à superfície terrestre, onde estão localizadas as suas infra-estruturas permanentes ou eventuais.
            A Força Aérea está habituada a utilizar tecnologia avançada, que é suportada por uma doutrina e personalizada numa táctica e numa logística, tudo envolvido por um conjunto de tradições sedimentadas por uma já centenária experiência.
            Este “uso do tempo” criou um “espírito aeronáutico” próprio.
            De todo este cadinho resulta um especial modo de ser e de estar e uma forma específica de comandar, que é onde reside o fulcro de toda a actividade desenvolvida.
            Deste modo a Força Aérea é o pilar mais importante do Poder Aéreo Nacional, cuja componente primordial é a sua capacidade letal. Isto é, a de causar danos e destruição a um hipotético inimigo.
            Como sói dizer-se uma Força Aérea sem munições é apenas um aeroclube muito dispendioso…
            Tal implica que os militares da Força Aérea estejam aptos e dispostos a matar e a morrer quando o cumprimento da missão o possa exigir.
            Missão que está firmada e salvaguardada, no Direito e na Ética.
            Missão que visa um objectivo que os ultrapassa e está para além deles: a defesa da Independência e Soberania de Portugal, a Integridade do Território e a Segurança da sua População, de qualquer ameaça que possa colocar em causa tal desiderato.
            Nem mais nem menos do que o objectivo histórico permanente e fundamental do Estado e da Nação Portuguesa, desde a sua fundação.
            Ora não se cumpre tal desiderato com simples “empregados, trabalhadores, ou colaboradores”, muito menos com mercenários.
            Carece de gente moralizada, instruída, corajosa e limpa. Exige vocação …
            Compreendemos que nem todos os que se alistam possam ter esta vocação – que é sobretudo necessária nos seus quadros permanentes – mas o “ar que se respira” deve de tal modo apelar aos valores vocacionais que tal ambiente irá formatar rapidamente quem se apresente pela primeira vez à porta de armas.
            As “deficiências” na vocação devem, então, ser minoradas pelo profissionalismo.
            Devendo ter-se sempre em conta que a vocação pode desenvolver-se no seio das fileiras, ou perder-se…
            E o que somos também deve emanar para o exterior.
            A citação de parte do relatório da viagem aérea a Macau, do Capitão Brito Pais, ilustra bem tudo o que dissemos:
            “Chamei Manuel Gouveia em Tripoli e disse-lhe: [1]
            - Você sabe, Gouveia, que vamos cruzar uma região perigosíssima e o voo é longo, cerca de 1.000 Km. Os perigos vão multiplicar-se, se formos obrigados a aterrar, a morte é certa. No deserto ou morremos de fome, se não encontrarmos ninguém, ou morremos decapitados se alguém nos vir. No mar, tão deserto como o deserto, se procuramos refúgio, a morte é certa também. Se você quer, vá para o Cairo num navio, nós o esperaremos aí.
            Gouveia olhou para mim zangado e, um pouco malcriadamente – porque não o direi? – respondeu-me apenas:
            - O meu comandante parece que não me conhece. Eu sou do Porto, da gente que deu nome a Portugal – Bolas! Se é preciso morrer, morre-se”.

                                                                *****
            Felizmente a Força Aérea e as suas antecessoras, Arma da Aeronáutica Militar e Serviço de Aviação Naval, foram servidos por muitos como Manuel Gouveia, durante a sua já vetusta História, que nunca deslustrou o País.
            E não poucos concorreram com o seu generoso sangue para a lista daqueles “em quem poder não teve a morte”.
            Foi nessa senda que a Força Aérea foi criada, existiu e existe, nunca deixando até ao limite das suas capacidades, de cumprir com as suas complexas e sempre arriscadas missões.
            E caso a nossa Padroeira – Nossa Senhora do Ar – e o patriotismo dos portugueses, assim quiserem e permitirem, continuará a existir e a cumprir, no futuro.
            Como o seu lema “Ex Mero Motu”, determina e subjaz, até hoje: Por Mérito Próprio!




                                                        João José Brandão Ferreira
                                                     Tenente-Coronel Piloto Aviador
                                                                         (Ref.)


[1] O então sargento mecânico Manuel Gouveia, grande pioneiro do Ar, mais tarde promovido a Tenente e hoje da classe de Sargentos da Força Aérea.